Por vezes olho para trás e vejo que já fui bastante feliz. Tinha tudo o que uma rapariga gostaria de ter, até o conhecer, até o conhecer bem, a ele e ao grupo dele.
Eu era apenas uma rapariga de 15 anos, com uma mentalidade um pouco mais evoluída, era meados de Julho quando passeava pelo pontão mais uma amigas, apanhava-mos algum sol, fofocávamos e falávamos sobre tudo e sim, dávamos bastante nas vistas, visto que eramos bastante populares naquela zona. Então num certo dia, numa dada hora ele passou por mim, calças de ganga clara, cabelo fora do normal, o sorriso perfeito, a pausar de air force e chapéu roxo juntamente com os óculos de sol da moda, ou seja, era o delírio das raparigas por onde passava. Caminhou até mim, sorriu, tirou os óculos e com a maior das simpatias perguntou-me onde era a estação de comboios. Afirmei tal questão e ao retribuir a simpatia tentei explicar-lhe onde era, porém ele não compreendeu e eu disponibilizei-me a ir com ele até lá. O silêncio permanecia e ele olhava p'ra mim por cima dos óculos de sol esperando que fosse eu a primeira a falar, mas eu estava mais concentrada nas bocas e olhares alheios das outras raparigas que passavam por nós. O caminho ainda era longo e como reparou que eu não seria a primeira a falar, ele acabou por meter conversa comigo e agradeceu vezes sem conta a minha enorme disponibilidade. Quando chegámos à estação já sabia o seu nome, onde morava e que se tinha enganado no sítio, tinha 16 anos e por fim conseguiu com que lhe desse o meu número. Despedi-me apressadamente dele com um "adeus, p'ra próxima não te percas", não fosse ele perder o comboio, mas voltou atrás e deu-me uma das suas pulseiras, rejeitei, mas ele insistiu, disse que era o mínimo que poderia dar para agradecer, acabei por aceitar, era daquelas pulseiras com nome, azul electro, da cor dos seus olhos. Era um rapaz bastante simpático, demasiado bonito e certamente nunca mais o voltaria a ver, pois ele era de Cascais. Não chegou sequer a passar 10 min., quando recebi a primeira mensagem dele "Obrigado por hoje mais uma vez, sabes, as raparigas que te viram comigo estavam a olhar furiosamente para ti", não resisti e tive de rir e dar aqueles gritos histéricos (os tipos gritos das raparigas quando estão felizes), acalmei-me e respondi “não era p’ra mim que olhavam, tu é que despertas interesse nelas!”, trocámos mais mensagens. Daí em diante, as mensagens e os telefonemas até tarde eram constantes com o Tomás. Começámos a contar tudo um ao outro, a partilhar conversas, sorrisos, a desabafar, e quando caí em mim estava a pedir-te para cá voltares, virias com o teu grupo, e eu perguntei porquê, ao qual tu respondeste “quero que eles conheçam a mulher da minha vida”. A partir desse dia, o Verão passou a ser nosso, só nosso. Conheci o teu grupo (eram somente rapazes, todos como tu, pausavam todos mas cada um com o seu estilo), também tínhamos os nossos momentos, por exemplo, quando andávamos pela praia ou pegavas-me ao colo e rodopiavas-me e até quando me metias às tuas cavalitas e me metias dentro de água. Eu era tua, tu eras meu, fazíamos a diferença por onde passávamos, juntos eramos um. Foram meses e meses e eu era tão feliz, Tomás. Até que uma noite me pediste para ir contigo há praia apenas os dois, estávamos de mãos dadas, de repente paras-te e olhas-te para mim, agarraste o meu rosto e começaste a dizer algo que eu não percebi. Comecei a ficar bastante nervosa e com medo e tu reparas-te por isso começas-te a falar:
- Amor, à algum tempo que tento dizer-te uma coisa que ando a evitar contar-te, não por medo, mas por vergonha e talvez por não querer que deixes de ter orgulho em mim.
- Continua Tomás, estou aqui para tudo, tu sabes que te amo assim como és, vou estar sempre contigo, acredita – prometi.
-Desde os 14 que a minha vida tem mudado, a minha vida virou raparigas, fumar, beber, mocas, festas, e porrada com grupos rivais. Não sou o que pareço miúda, a única coisa sincera em mim é o que sinto por ti, sei que não és uma qualquer, que o que sinto não é passageiro e acredita que nunca o senti por ninguém!Fiquei um bocado desiludida, confesso, mas isso não alterou nada do que sentia por ti, continuavas a ser o meu Tomás. Beijei-te e abracei-te com toda a força, para conseguires ver que estaria sempre a teu lado.
- Obrigada “pequenina”, amo-te – disseste-me sorrindo
Agora sim, não existia segredos entre nós, eramos um do outro mesmo com todos os defeitos que poderias ter. Agora estávamos todos juntos, tu fumavas, tu e o teu grupo tinham conversas que eu nunca consegui perceber, ao início metia-me impressão, mas ver-te feliz bastava-me. Um dia pedi-te para experimentar, disseste que de ti não recebia nada, que aquilo me fazia mal e que poderia viciar, não liguei e continuei com aquela ideia na cabeça, pois sentia que estava a perder-te e se para voltarmos ao que eramos fosse preciso fumar, eu fazia. Por fim, um dos teus amigos acabou por dar-me, gostei. Olhei p’ra ti e no teu olhar dava para ver que estavas magoado, mas com o passar do tempo foste-te habituando que aquela era a vida que eu gostava. Como eu esperava, voltámo-nos a aproximar. Uma certa tarde fomos passear pela tua rua, como sempre de mãos dadas, então de um relance soltaste-te, afastaste-te e percebi que irias dizer algo…
- Miúda, vê no que te andas a tornar e no que te andas a meter, deixas-te de ser quem eras, tu estás perdida num mundo de onde não conseguirás sair, estás completamente viciada, a rapariga que eu conheci e por quem me apaixonei, DESAPARECEU, tu nem amigas tens. Passas dias e dias connosco, com o meu grupo, nem vais à escola, olha para ti! – Gritas-te.
Comecei a chorar, as tuas palavras bateram-me como pedras no coração, agarrei-te:
-Eu fiz tudo por ti Tomás, só queria ter-te sempre comigo. Tentei acompanhar-te, mas sem estar no teu mundo era difícil, tu és tudo para mim, perdoa-me, nunca te quis perder.
Afastei-me e comecei a correr, estava desconsolada, ainda te ouvi a dizer “desculpa mas eu não merecia nada disto”, sabia que o que dizias era verdade, ao longo do caminho esfregava as mãos na cara e sentia nojo de tudo o que fiz por ti naquele tempo. Apanhei o comboio, só queria chegar a casa. Quando finalmente cheguei, lavei a cara, acalmei-me e fui para o quarto, deitei todos os maços, todas as mortalhas, todos os sacos e recordações no lixo, percebi que nada tinha valido a pena.
(Tomás começa a contar a história)
Quando se foi embora ainda tentei abrir-lhe os olhos, dizendo que não merecia nem metade de tudo o que ela fez por mim, pois era apenas um puto desvairado que só queria fumaradas e raparigas. Sim é verdade, gostava mesmo dela, mas vê-la destruir a vida por minha causa, custava-me imenso, ela não pertencia àquele ambiente, ela não se sabia controlar, não sabia o que fazia e por gostar tanto dela, fui obrigado a deixá-la partir. Passaram semanas e sentia imenso a falta dela, tudo o que mais queria naquele momento era estar com ela, pedir para voltar, mas no fundo sabia que não o podia fazer. Entretanto decidi voltar a Cascais, em vão porque ela não iria estar lá. Saí de casa e estava bastante frio, vesti um casaco sempre a marcar cenário com os melhores ténis. Quando cheguei acendi uma ganza que ela tinha feito e eu haveria tê-la tirado uma vez. Caminha lentamente, com pensamentos alheios, agora estava confuso e metia a questão de ela gostar realmente de mim, de tudo o que tínhamos construído era sincero ou se apenas queria estar comigo pela adrenalina e fama, talvez estivesse a pensar de uma maneira egoísta, porque se também fosse questionar o que vivemos juntos, se calhar chegarias a pensar que nada do que foi feito por mim, tinha realmente sido sentido, mas se isso fossem os teus pensamentos estarias realmente enganada.
Até que vi uma rapariga, estava a boiar dentro de água, por momentos achei-a maluca por conseguir estar ali com aquele frio, as ondas estavam brutas e ela parecia tão indefesa entre elas, de repente deixa de a ver, entrei em pânico, despi o casaco e fui socorre-la. Levei-a para a areia e tentei acordá-la, ela era linda, nunca tinha visto ninguém assim, cabelos compridos, escuros, bastante morena, parecia uma princesinha.
( a nova rapariga começa a contar a história )
( a nova rapariga começa a contar a história )
Acordei bastante atordoada, estava com tanto frio, balbuciei toda a àgua que tinha engolido enquanto boiava por entre aquelas ondas. Abri os olhos e lá estava ele, meio atrapalhado a tentar aquecer-me para ficar estabilizada. Ele era lindo, o mais bonito, nunca tinha visto ninguém como ele, parecia um principezinho. Tentei levantar-me, tentativa falhada, pegou-me pelo braço e ajudou-me, sorri.
- Levanta-te tranquilamente, mete o meu casaco por cima para ficares quente.
Sentámos-nos na areia, encostei-me involuntariamente ao ombro dele, cheirava tão bem. Permanecemos em silencio até eu estar recuperada. Preparavas-te para ires embora, mas não deixei, abanas-te a cabeça e voltaste-te a sentar.
- Catarina é um nome muito bonito, miúda.
- Trata-me por Cate, é mais rápido – brinquei – então o que fazes aqui?
- Tentar esquecer parte do passado, apagar recordações, ou pelo menos… Tentar- apagas-te o cigarro.
- Tentar esquecer parte do passado, apagar recordações, ou pelo menos… Tentar- apagas-te o cigarro.
Tinhas a expressão de um rapaz triste, não perguntei o que tinhas, contaste-me sem que fosse preciso eu perguntar, prometi apenas ouvir-te e respeitar-te. Falaste-me da tua vida, que eras um rapaz com fama e proveito, que a tua vida era fumaradas, festas, raparigas e saídas de grupo e que nele e na tua zona eras Rei. Contaste-me da tua ex-namorada e da vossa relação. Quando acabaste de contar tudo, dei-te a minha opinião e tentei ajudar-te da melhor maneira, em tão poucas horas construí-mos uma ligação muito forte. Passou pouco tempo até nos tratarmos por melhores amigos, éramos um para o outro, estavas em todo o lado, amava-te mais do que tudo, partilhávamos o mesmo sentimento. Foi um ano das nossas vidas, de momentos que nunca mais iria ter com ninguém, éramos tudo um ao outro. As drogas e as raparigas? Desapareceram da tua vida tão rápido que eu estava orgulhosa de mim mesma. Agora sim, eras um puto que tinha muita fama e era tratado com respeito. Éramos felizes, Tomás, éramos felizes…
(Tomás volta a contar a história)
Aquela noite ainda hoje me trás pesadelos e lágrimas aos olhos. Era sexta feira, fui pausar com os meus tropas para o Tamariz, quando cheguei mandei-te mensagem “cheguei melhor amiga, tem cuidado a noite é perigosa, qualquer coisa apita, sabes” não respondes-te, não me preocupei, provavelmente não terias ouvido o telemóvel. O som estava bombar, estava tudo ao rubro, era a loucura. Até que recebi uma mensagem, não era tua e o número também não conhecia “puto temos quem queres, vem à porta e falamos” não sei porquê mas senti um arrepio e uma sensação terrível, fui para a porta sem dramas nem tropas, não era de espalhar as coisas. Saí da porta e vi um puto de um grupo rival (à tempos tinha-lhe roubado a namorada, não passava de uma rapariga fútil) contigo, agarrava-te de uma maneira monstruosa, estava com uma mão no teu braço e outra a apontar-te uma navalha ao pescoço. Choravas como nunca tinha visto, termias e gemias de tanto medo. Fiquei petrificado, estava com um enorme medo de te perder, tentei acalmar o rapaz e tentei que ele te largasse, mas a ganância de vingança falava mais alto. Ajoelhei-me num acto de desespero, chorei, tirei o casaco, ténis, telemóvel, pulseiras, tudo o que tinha e supliquei para te largar, pedi para me matarem a mim mas para te deixar ir. Ele gozava comigo, que nunca pensava que um rapaz como eu, se rebaixasse por uma rapariga vulgar. Gritei que não eras vulgar, que eras tudo para mim, que tinhas sido tu que me fez renascer e largar todo o mal em que andava, que por ti tinha mudado e tinha ficado alguém melhor. Não aguentei ver-te assim, ali com ele, levantei-me e estava prestes a dar-lhe uma tareia quando me pediste para parar.
Aquela noite ainda hoje me trás pesadelos e lágrimas aos olhos. Era sexta feira, fui pausar com os meus tropas para o Tamariz, quando cheguei mandei-te mensagem “cheguei melhor amiga, tem cuidado a noite é perigosa, qualquer coisa apita, sabes” não respondes-te, não me preocupei, provavelmente não terias ouvido o telemóvel. O som estava bombar, estava tudo ao rubro, era a loucura. Até que recebi uma mensagem, não era tua e o número também não conhecia “puto temos quem queres, vem à porta e falamos” não sei porquê mas senti um arrepio e uma sensação terrível, fui para a porta sem dramas nem tropas, não era de espalhar as coisas. Saí da porta e vi um puto de um grupo rival (à tempos tinha-lhe roubado a namorada, não passava de uma rapariga fútil) contigo, agarrava-te de uma maneira monstruosa, estava com uma mão no teu braço e outra a apontar-te uma navalha ao pescoço. Choravas como nunca tinha visto, termias e gemias de tanto medo. Fiquei petrificado, estava com um enorme medo de te perder, tentei acalmar o rapaz e tentei que ele te largasse, mas a ganância de vingança falava mais alto. Ajoelhei-me num acto de desespero, chorei, tirei o casaco, ténis, telemóvel, pulseiras, tudo o que tinha e supliquei para te largar, pedi para me matarem a mim mas para te deixar ir. Ele gozava comigo, que nunca pensava que um rapaz como eu, se rebaixasse por uma rapariga vulgar. Gritei que não eras vulgar, que eras tudo para mim, que tinhas sido tu que me fez renascer e largar todo o mal em que andava, que por ti tinha mudado e tinha ficado alguém melhor. Não aguentei ver-te assim, ali com ele, levantei-me e estava prestes a dar-lhe uma tareia quando me pediste para parar.
- Tomás, pára! Se isto tem que ficar assim, ele que me faça mal a mim. Tu mereces viver, és perfeito e tornaste-te num grande miúdo. Eu já fiz tudo o que tinha a fazer aqui, mudei-te, fiz com que deixasses aquela má vida, fiz com que abrisses os olhos, consegui que me olhasses nos olhos e dissesses “amo-te”, amo-te por tudo o que és, somos, foste e te tornas-te por mim Tomás. Vou estar sempre contigo, sempre, seja onde for e como for melhor amigo. A única coisa que te peço é para continuares como estás para sempre e que não voltes a cair na má vida! – choras-te.
E gritando “amo-te”, puxas-te a navalha e fizeste força para ela te ferir, acabando por morreres, por morrer para eu deixar de ter problemas. Foi tão mau ver-te ali, peguei-te com cuidado quando já estavas no chão, beijei-te a testa e prometi que era para sempre. O rapaz que te fez isso acabou por levar forte e feio dos meus tropas e foi preso. Nunca pensei ter amigos tão maravilhosos, já me tinhas avisado, mas se hoje não deixei de ser quem era, foi por ti e por eles.
Amanhã por ti e por eles vou pausar para Cascais, amo-te melhor amiga


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